Flor no asfalto

Criador: ipopba | Crédito: Getty Images/iStockphoto

Imagine uma floresta frondosa, com árvores de várias espécies e tamanhos, assim como plantas rasteiras e arbustos compondo o quadro visual. Repare em sua exuberância, sua gradação de cores e formatos. Agora mude o cenário: pense em uma única muda em meio a um solo seco e craquelado ou mesmo uma única flor nascendo no asfalto.

Perceba que no primeiro ambiente, carregado de vida, é mais difícil notar cada vegetal individualmente. O “excesso” da paisagem nos anestesia da importância de cada espécime para a formação do todo. Já nos outros lugares, inóspitos, percebemos a força da planta ou flor que, apesar do ambiente hostil, consegue se sobressair e afirmar sua existência.

Agora façamos uma analogia. A floresta é como nossa sociedade, apinhada de gente. Nunca houve tantas pessoas vivendo juntas como hoje em dia. Em nossas aglomerações também é uma tarefa árdua notar cada vida individualmente, mas todas têm sua importância e participam na feitura da realidade. Por outro lado, alguém que porventura resida em um ambiente isolado ou praticamente inabitável talvez tenha uma consciência maior do quanto vale uma vida. E o ponto é: todas as vidas importam, por mais incipientes que sejam.

Ver a muda que cresce, apesar das adversidades, é algo que dificilmente alguém não veja como belo, ou mesmo poético. E estou falando de uma vida vegetal. Como não ter pelo menos o mesmo apreço ou um afeto ainda maior pelo feto que, se nutrido, crescerá e afirmará sua individualidade também? Como pode alguém amar a planta em potencial que se desenvolve mesmo quando o entorno não coopera e não amar os seres humanos em potencial que são indesejados, tolhidos da possibilidade de existir?

A diferença elementar na pobre comparação entre plantas e seres humanos é que as primeiras podem sobreviver sem a ajuda de suas semelhantes, mesmo nos estágios mais iniciais de sua existência. Não podemos dizer o mesmo da espécie humana.

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Amor fati

Foto por Ignacio Palu00e9s em Pexels.com
Como posso ser eu mesmo
Se não sei quem sou.
O recomeço diário a que me entrego
Só pode advir do amor que recebo sem merecê-lo.
Ah, ilusões de uma vida mal vivida!
Deixem-me em paz!
A história que até aqui escrevi está incompleta;
A parte que falta se esconde e me escapa.

Releitura do Eclesiastes

Foto por Bradley Hook em Pexels.com
Tudo é igual embaixo do sol.
A gente nasce, cresce, se reproduz e morre.
Os dias são quase idênticos em sua monotonia e desencantamento.
O rico e o pobre esperam o mesmo destino.
Não há por que desesperar.
O futuro é incerto e o fim está sempre próximo.
Tudo é o mesmo debaixo do sol.
Há amor, perdão, bondade e beleza.
Contudo, também há dor, maldade e destruição.
E há a constante certeza:
Tudo é banal abaixo do sol.
Por isso busquei o bem enquanto vivi,
Mesmo quando não o queria.




Primavera

Foto por Jill Wellington em Pexels.com
Pingos grossos açoitam os telhados; 
As árvores dançam com o vento;
O tempo arrefece seu furor.

A chuvarada então acaba.
O sol ressurge por detrás das nuvens
E o céu volta a ser azul topázio...

As janelas são abertas,
E a brisa invade a casa toda:
Refrescante e benfazeja.

(Cheiro bom de terra molhada:
Memória viva de uma época já extinta.)

Tião

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

O bar estava cheio. Homens e mulheres bebiam, fumavam e dançavam. O som estava estridentemente alto. Josenilda já estava empapuçada de tanto beber. Mesmo assim, influenciada pelo ambiente, não conseguia parar.

Em um certo momento, todos olharam para a entrada do estabelecimento: era Tião que chegava. Conhecido por ser mal — já tinha matado mais de dez —, era temido na região. O caminho ia sendo aberto à medida em que o matador se dirigia à sua mesa de praxe.

— Desce uma cana aí! — trombeteou, e logo foi atendido.

Costumava sentar-se sempre no mesmo lugar e tomar sua cachaça sozinho.

Quando deu por volta das quatro da manhã, Josenilda, de tanto beber, apagou. Encostada em um pilar, agachada e com as pernas levemente abertas, era alvo de desejo. Tião notou um reboliço entre alguns dos bêbados. Como estava perto deles, ouviu parte da conversa:

— É hoje que eu pego a Josenilda.

— Mas ela está desacordada…

— Melhor ainda!

Um deles ia se aproximando da moça. Tião se levantou prontamente, e disse:

— Nem se atreva, hoje ela é minha!

O homem, contrariado, teve que recuar. Muitos olharam assustados, imaginando que maldades o matador poderia fazer com a mulher já inconsciente. Um ou outro pensou em intervir, mas não teve coragem.

— Vou levá-la pra casa. Alguém se opõe?

Ninguém se opôs.

Tião então pegou Josenilda, encaixou-a nos ombros e saiu com ela. No caminho, podia sentir o calor e a maciez do corpo dela. E já fazia um bom tempo que não se deitava com mulher nenhuma.

Ao chegar em frente à casa da moça, golpeou com o pé a porta e entrou com ela nos braços. Avistou o sofá da sala e a deitou carinhosamente. Avistou uma manta perto e a cobriu, exatamente como a mãe de Tião fazia com ele quando era criança.

Quando já estava quase atravessando a porta para ir embora, ouviu uma voz balbuciando, quase inaudível:

— Obrigada. Deus lhe pague!

Tião então bateu a porta ao sair e foi embora, sem olhar para trás. Já na rua, sentiu os primeiros raios de sol no rosto. O dia já estava amanhecendo.

Quase no lago Walden

Foto por mali maeder em Pexels.com
Construí minha morada com minhas próprias mãos
E aprendi a me ater apenas ao que importa.
Não há melhor companhia do que estar sozinho,
Ou entre amigos — e ainda assim, lá não permaneci...

Grandes cidades me embrulham o estômago!
Mas uma aldeia, um vilarejo que seja, é a comunidade
Da qual quero fazer parte. Lugar onde todos são senhores
E são conhecidos pelo nome: clãs familiares.

O sino da igreja, do povoado que escolherei, 
Baterá nos horários certos e nos avisará
Se é hora de rezar, comer ou dormir...

(E tudo ficará bem, como sempre esteve, 
Para os de mente satisfeita.)

Paternidade

Foto por Juan Pablo Serrano Arenas em Pexels.com

Os dois amigos conversavam:

— Como isso? Você tem um filho e até hoje nunca foi vê-lo?

— Nunca, não tive coragem de procurá-lo depois que abandonei a mãe dele. Ele ainda era um bebê na época.

— Que absurdo, Norberto! Que idade ele tem hoje?

— Deve ter uns 13 anos.

— Como eu nunca soube disso?

— Foi só um caso sem importância. Não cheguei a contar pra ninguém na época.

— Que papelão! E agora vai finalmente encontrá-lo e assumi-lo?

— Não, na verdade mudei de ideia e prefiro não o conhecer. Não sei o que me deu quando liguei pra mãe dele e marquei um encontro. Devia estar muito bêbado.

— Isso não se faz! Você criou esperança no menino e agora dá pra trás. E a sua responsabilidade de pai, como fica?

— Sou covarde, confesso. Fazer o quê?

— Fazer o quê?! Ora, já que você é tão medroso, eu vou lá avisar que você não vai mais, é o mínimo. Me dá o endereço!

— Não precisa. Você faria isso por mim, Cláudio?

— Não é por você, seu mau-caráter. É pelo menino.

Cláudio chegou ao endereço no fim daquela tarde mesmo. Ao ser recebido na porta, depois de tocada a campainha, foi visto com espanto. A mãe não sabia quem ele era, mas já previa o que ia acontecer. Ela se conteve para não atacar o mensageiro da má notícia. Depois de uns minutos, relutante, deixou o homem entrar.

— Por favor, seja gentil com o Eduardo.

— Não se preocupe, dona…. Irene, certo? Não sou o cafajeste do Norberto.

Quando entrou, viu um menino sentado em sua cadeira de rodas a assistir à televisão na sala.

Os olhares se cruzaram. Eduardo não sabia se sorria ou se ficava sério. Cláudio percebeu ansiedade no menino e, sem saber explicar por que fez o que fez, disse:

— Não me reconhece? Sou eu, seu pai.

O menino então abriu um sorriso, talvez o mais lindo que Cláudio já tinha visto, e correu com sua cadeira em direção ao homem, que se abaixou para abraçá-lo. A mãe olhou ternamente para a cena, e agradeceu com os olhos marejados ao homem que nem conhecia.

A partir daquele dia, Cláudio não fez mais questão de manter contato com o amigo e passou a visitar o menino toda semana. Eduardo finalmente tinha um pai.

Náufragos

Foto por Nadine Biezmienova em Pexels.com
Traços inconclusos de uma vida mal vivida...
Fome insaciável que nos devora todo dia...
Urgências desimportantes, cataclismas estelares...
Grão minúsculo e ridículo a vislumbrar a longínqua Antares...

Somos todos bêbados e náufragos 
Realizando promessas sem jeito,
Errando pelos mares ao vento,
À espera de que nos livrem do túmulo...

O oceano ainda nos chama
Mas não temos o que dar!
Água fria em nós avança...
Só nos resta suplicar!

Espelho

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com
A incompatibilidade do ser
E seu vão avesso:
De contrário em contrário
Tornou-se um absurdo
.....................................................
E definitivamente surdo
Ao chamado necessário
Vindo do berço:
Não há nada o que temer!

Amanhecer

Foto por Pixabay em Pexels.com
Não preciso de mais nada.
Poderia morrer agora
Ou no entardecer; a hora,
Tomara, será santificada.

Os cereais colhidos de manhã
Com mãos fortes e calejadas
Que afagam a terra desejada
E concluem o lavoro com afã.

Desejo ardente de enfim encontrar
Aquele que nos criou com alegria.
Sem precisar de escada, dura via,
Para, em união perene, a ti chegar.