A mulher e o guarda-chuva

Foto por Maxime Francis em Pexels.com

Quase toda vez que caminho pela rua São Bento em direção à estação homônima do metrô na hora de voltar do trabalho pra casa, avisto o que parece ser uma senhora, em trajes escuros, acampada debaixo de um guarda-chuva preto. Arrisco dizer que é uma mulher pequena pelo o que consigo notar de suas feições, mas nunca a vi bem o bastante para bater o martelo.

Talvez ela faça parte dos muitos moradores de rua do centro da cidade… Talvez não, provavelmente faz. O que me fez notar sua presença, é que sempre que a vejo, ela está no mesmo lugar, sentada quase ao nível do chão com seu guarda-chuva bem perto de si, a cobrir a maior parte do seu corpo. Parece se abrigar nele, mas não sei o porquê. Está se protegendo ou se escondendo de algo ou alguém? Seu guarda-chuva é uma das poucas coisas que possui e por isso o utiliza como teto? São tantas perguntas…

Se quem me lê ficou curioso, sinto informar que não tenho as respostas. O que posso afirmar é que, mesmo sem a senhora o saber, há alguém (eu) que repara nela, alguém que mesmo sem saber nada sobre ela, nota sua existência; alguém que sabe que há um ser-humano por baixo de sua casa improvisada, um ser que por mais anônimo que seja, tem sua existência atestada por estas simples palavras.

É provável que eu ainda a veja muitas vezes… A mulher e seu guarda-chuva.

Fogo violento

Foto por Berend de Kort em Pexels.com
Ardência dos sentidos;
Quentura que refresca;
A chama avassaladora veio
Pra livrar as almas frias.

O crepitar na noite sem lua,
E não é nem dia santo.
Queima, queima sem cessar
Até que nada sobre.

A janela

Foto por Pixabay em Pexels.com
Da janela do quarto avistei
O mundo pulsante lá fora.
Dormiria mais uns instantes
Mas em mim gritava incessantemente:
Acorda! Acorda!

Mesmo em dias de frio ou chuva,
Quando ela fica embaçada, e mal
Consigo ver através dela,
Sei que há vida lá fora.

Sempre há vida lá fora...
E aqui também.

A terra

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com
Com o cantar do galo arredio
É chegada a hora;
Com seus raros raios fugidios 
Aproximou-se a aurora;
O solo que outrora nos nutriu 
Agora nos apavora;
A terra que uma vez já nos serviu 
Agora nos devora...

Sem demora, é chegada a hora!

Pisadas

Foto por Jahoo Clouseau em Pexels.com
Quando pisei a relva
Meus pés descalços absorveram
O orvalho da manhã...

Os pés nus roçaram a terra escura:
Comunhão com o chão
Que nos ampara e alimenta.

Pisei, pisei e pisei...

E quanto mais eu pisava
Menos eu era eu
E mais eu era parte.

O persistente

Tião, outrora campeão e exímio pugilista, aventurou-se a mais um combate clandestino. Depois de aguentar os 12 rounds, veio o resultado: perdeu por pontos. Pelo menos receberia sua parte. Teria o que levar para a família. No caminho de casa, sonhava: “Será que consigo outra luta semana que vem?”

O navegante

Foto por Pixabay em Pexels.com

Após décadas em alto-mar, Cristian, que passou pelas mais diversas peripécias e atribulações, chegou a um impasse. Olhou para o céu enquanto matutava e tomou uma decisão. Com um mapa já surrado e rasgado nas mãos, apontou a nau em direção ao lugar que mais queria alcançar. Estava voltando para casa.

Barroquismos

Foto por Jose Manuel Gonzalez Lupiau00f1ez Photography em Pexels.com
I
Se antes eu era Pollock
Agora sou Caravaggio...
Fragmentos e abstração
Abandonados; hoje em mim
Vive a autêntica e nobre arte!

II
Claro e escuro, rebuscados...
O real representado
Revela o além — desta
História humana e feia
Sou apenas anódina parte...

III
O monstruoso bem esmaga
A todos! Se a verdade se apagou,
Aqui vai o lembrete amigo:
Perecemos débeis, meus irmãos!
Todavia, fica o belo baluarte.

David Foster Wallace e a TV

David Foster Wallace com sua cachorra, Bella

Ultimamente veio tendo uma preocupação que a outros pode parecer preciosismo, frescura ou mesmo uma dificuldade para aceitar um caminho sem volta: refiro-me ao uso de telas (TVs, tablets, smartphones etc.), principalmente por crianças. Vira e mexe leio algo a respeito em livros e artigos. O que venho aprendendo: que seu mal uso prejudica o processo cognitivo, especialmente dos mais jovens. Resumidamente: consumir telas pode emburrecer ou mesmo adoecer as pessoas.

É justo apontar uma tênue diferença entre a televisão e a internet (essa diferença já está borrada com a chegada das smart TVs e plataformas de streaming): o conteúdo do televisor nos é transmitido, e só nos cabe escolher qual programação acompanhar. Já na internet é possível buscar o que nos causa interesse; ou seja, exige de nós uma postura mais ativa. Porém, é fácil se perder em meio às trocentas páginas disponíveis se não tivermos foco. Isso sem falar das redes sociais, que podem roubar um tempo precioso ou mesmo serem fontes de ansiedade, depressão e adicção. Portanto, a apreensão quanto ao uso de telas permanece.

Um dos escritores americanos mais cultuados da atualidade inclusive optou por não ter uma TV. Estou falando de David Foster Wallace (DFW), autor de “Graça Infinita” e de outras obras repletas de referências e notas de rodapé. A opção de Foster Wallace de ser alguém sem televisão se deu ao fato de o escritor ver o entretenimento televisivo como algo alienante a ser consumido compulsivamente. Ele temia que caso tivesse uma TV, não conseguisse se dedicar ao seu trabalho.

Após décadas sofrendo de depressão, ele acabou se matando em 2008, aos 46 anos. DFW foi a voz de uma geração. Muitos se reconheceram em seus livros que abordam, entre outros temas, o tédio, o vício e o consumo excessivo a que todos nós somos incentivados por meio da propaganda e demais modos de persuasão.

Fico imaginando o que David pensaria e escreveria sobre o desenfreado e, arrisco a dizer, onipresente uso e abuso das telas em seus variados formatos nos dias de hoje. Certamente não seriam elogios.

Medieval

Foto por Maria Pop em Pexels.com
Meu coração já não é meu;
Pertence a quem de direito: o rei.
Combaterei o bom combate
Até que minhas forças se esvaiam:
Lágrimas e sangue derramados.

Defenderei o vosso reino
Com o dom que recebi.
Minhas armas e morada
São apenas de empréstimo
Nesta terra desolada...

Caminharemos rumo ao fim:
Recomeço, da morte
Ao nascimento.